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Discordar e estar juntos

Professor da UFPE

Coordenador do LECgeo – Laboratório de Estudos sobre Espaço Cultura e Política

Sentimentos não podem ser ensinados; têm que ser evocados.

Na política, é a coisa mais parecida com milagre.

Mark Lilla

Não importa o quanto estejamos de acordo com as políticas de cotas (de raça, de gênero ou socioeconômicas) que fazem parte há tão pouco tempo do cotidiano acadêmico: o ingresso nas universidades brasileiras de milhares de pessoas de perfis que antes tinham acesso episódico ao ensino superior tem transformado, paulatinamente, o jeito como pensamos e agimos nas salas de aula, grupos de pesquisa ou trabalhos de campo.

Em geral, a universidade ainda não está preparada para a velocidade das mudanças que esta nova realidade exige. Dois exemplos bastam: alunos espetaculares em termos de raciocínio geográfico podem ter deficiências importantes de expressão escrita, o que se reflete na redação sofrível de muitas monografias sobre os espaços que eles tanto conhecem, vivenciam e compreendem. Mesmo considerando que, em geral, os jovens de hoje escrevem com dificuldade, aqueles oriundos de situações de vulnerabilidade e deficiência podem apresentar bloqueios e timidez por conta de má formação básica ou de “preconceitos linguísticos” que reproduzimos sem ao menos nos dar conta. Outra situação que me parece ilustrativa refere-se às dificuldades para mantermos um padrão de serviço equânime nos longos trabalhos de campo que as disciplinas geográficas exigem, uma vez que muitas pessoas não dispõem de recursos para refeições e hospedagens, ainda que os departamentos de assistência estudantil provenham algumas diárias. Não podemos fechar os olhos para quem não desce do ônibus pelo simples fato de não poder comprar um sanduíche ou prato feito na beira da estrada.

São acontecimentos prosaicos como esses que nos fazem descer do salto. Trabalhando há mais de 10 anos em um grupo de pesquisa em Geografia Política e Cultural (o LECgeo), eu imaginava ingenuamente que as grades do laboratório estavam abertas para estudantes de todas as raças, credos, etnias e orientações sexuais. Com a chegada de mais e mais negros e negras, todo o espectro LGBTQI+, indígenas, pessoas de outras partes do Brasil e do mundo em mobilidade acadêmica etc., os nossos temas prediletos começaram a ser tensionados, alargados, questionados. Novos interesses e direções inusitadas denunciavam que as “portas abertas do saber” poderiam permanecer intransponíveis.

A obviedade de que não existe (nem nunca existiu) um “estudante padrão” tornou-se ululante, junto com a tentação de se pulverizar em um sem-número de divisões aquilo que já é fragmentado a priori por áreas do saber, campi, departamentos e interesses. No Brasil de hoje, país dos contingenciamentos de recursos por toda parte, dos cortes sem qualquer critério, das queimadas descontroladas de Norte a Centro-Oeste e do óleo cru nas praias paradisíacas do Nordeste, o sentimento de empatia precisa, com urgência, ser repensado e evocado.

Não há milagre, mas vale a metáfora: quem fizer a maioria entender o sofrimento e a condição do outro nos tira dessa encruzilhada. Por um lado, é preciso reconhecer direitos, promover reparações históricas, dar oportunidades para quem, por alguma razão, largou atrás. Por outro, temos o dever de construir uma cidadania integrativa, nem excludente, nem fragmentária: não é possível promover um estilhaçamento identitário desmobilizador sob o pretexto de tecer nexos como o eterno “Outro”.

Temas como geografias negras e indígenas, estudos subversivos de gênero e sexualidade, cidadania paisagística e muitos mais caminham na fronteira dos modismos acadêmicos e, portanto, precisam ser realizados com bastante cautela. São desafios a serem encarados, pois já “arrombaram” as portas dos laboratórios; mas são geografias que precisam também aprender a ouvir contra-argumentos e discordâncias, sem respostas pré-concebidas pela militância acalorada do dia-a-dia. Podemos discordar e estar juntos.

Assim, precisamos de todos e todas para evocar sentimentos de civilidade, respeito e aceitação da igualdade de oportunidades – um princípio sem o qual a democracia é insustentável. Porque o que nos faz diferentes deve partir de um patamar comum que nos une enquanto cidadãos e cidadãs.

"Detalhe de cartaz de campanha política estudantil na UFPE, 2019" - autoria do próprio.

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