A chuva é inocente: lições necessárias das tragédias

February 3, 2020

Professora Titular de Geografia - UFRJ

Coordenadora do GEOPPOL

 

O título parece cruel ante as muitas tragédias de Minas Gerais, Espírito Santo e do estado do Rio de janeiro. Mas, pensar é preciso. Quase duas décadas atrás escrevi outro artigo com título semelhante para outra tragédia provocada por fenômeno climático. No caso, a seca é que era inocente. Tratava-se do sertão nordestino e suas recorrentes mazelas sociais pela falta de  chuva. Hoje, na próspera Região Sudeste as semelhanças são muitas, mesmo se paradoxalmente em um caso o problema era a escassez de água e no outro é o seu excesso. Vale lembrar que a natureza da Região é de clima tropical, sujeito a chuvas torrenciais no verão, o relevo montanhoso com vales e encostas íngremes que perderam a maior parte da cobertura vegetal original. Sua natureza é frágil, especialmente diante da imprudência humana. Neste caso, como nas secas nordestinas, a natureza tem servido de véu para encobrir a má política e a má gestão nas tragédias.

Ante a calamidade que assola os municípios afetados por enchentes, deslizamentos de encostas que resulta em famílias desabrigadas, perdas materiais e de vidas, duas evidências se impõem: a força da natureza e a fraqueza da ação do poder público. Sobre a primeira, o que há a fazer é conhecer melhor a dinâmica dos seus fenômenos, o que as ciências da natureza têm se empenhado em desvendar, ajudando às políticas de prevenção e adaptação. Sobre a segunda, há muito a discutir. Especialmente frente à questão simples: por que as tragédias são recorrentes? Mas o silêncio dos políticos e dos gestores urbanos é ensurdecedor.

A natureza transformada pela sociedade revela-se na paisagem e esta é um produto também político. Esta é a palavra chave do dilema que os brasileiros atingidos direta e indiretamente por esta catástrofe. A análise das lacunas da ação do poder público municipal, estadual e federal tem sido o foco, mas este não esgota o assunto. Há duas outras dimensões: a da política como sistema de escolha dos governantes e da política como ação governamental, ou seja, como política pública. Se a primeira se revela nas regras e normas do sistema partidário e eleitoral, pouco compreensível para a maioria, a segunda tem visibilidade imediata na paisagem dos territórios. Mas ambas são parte de uma relação que, seja de amor ou de ódio, é sempre a dois, ou seja, do sistema político com o território e a cidadania. 

Mas, afinal o que nossa paisagem urbana nos revela desta relação, para ficar apenas no problema da favelização de todas as periferias da maioria das cidades brasileiras? As favelas revelam a não-política pública de habitação, há muitas décadas fora da pauta política, com um tímido retorno com programas como o “Minha casa minha vida”. Mas a favelização revela mais. Do ponto de vista do seu morador, uma estratégia de habitar, afinal um teto é preciso e foi a partir desta necessidade dos mais pobres que nossas cidades se expandiram. Esta estratégia revela também que este morador, sem consciência do seu direito de cidadão, se conforma com muito pouco. Conforma-se com uma moradia precária em um ambiente sem condições sanitárias básicas e sem nenhuma segurança, o que adquire visibilidade nefasta quando as tempestades de verão ocorrem.

Mas onde entra o sistema político na tragédia dos moradores afetados por tragédias desse tipo pelo país a fora? A permissividade dos poderes públicos com a população mais pobre, mas também com os mais ricos, favorece uma contabilidade bem objetiva em tempos de eleições. E não esqueçamos que somos uma vigorosa democracia representativa, com eleições a cada dois anos para as quais milhares de candidatos se apresentam: prefeitos, vereadores, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores, presidente. A população pobre troca seu voto por um teto indigno e inseguro. Poderia trocar por bem mais, como faz a mais rica, mas ela desconhece o recurso precioso de que dispõe. 

E aqui entra o papel dos formadores de corações e mentes que desconectam o espaço da política do espaço da sociedade, como se esta fosse apenas vítima inocente de maus políticos e de maus gestores. Nada é dito sobre o poder do voto como um recurso da cidadania e da responsabilidade do eleitor em acompanhar e cobrar as promessas do seu representante eleito. Se a baixa escolaridade e a pobreza são explicações plausíveis para as estratégias mais imediatistas dos pobres, o mesmo não pode ser dito daqueles que, ao desconectar o sistema político do cotidiano social e do espaço urbano produzido por ambos, alienam politicamente o pobre e deixam-no a mercê de um populismo perverso que abastarda seus direitos como cidadãos. Políticos ineptos e sociedade pouco vigilante são a conjunção perversa das tragédias passadas, presentes e futuras. A natureza faz sua parte, cabe à sociedade se apropriar da política e fazê-la funcionar a seu favor, como o fazem outros povos, cujas catástrofes naturais têm como saldo dramático o que é inevitável. O que infelizmente ainda não é o nosso caso.

 

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